O samba pede passagem, no seu dia

Dia do Samba é comemorado neste sábado, relembrando o legado de uma legião de grandes artistas, e com a partida do Trem do Samba

 

Uma semana marcante para o samba. Na segunda-feira passada, dia 27, se comemorou o marco inicial do samba, os 101 anos do registro pelo compositor Ernesto Joaquim Maria dos Santos (1889-1974), mais conhecido como Donga, na Fundação Biblioteca Nacional (BN), no Rio de Janeiro, a música “Pelo Telefone”. Amanhã, dia 2, comemora-se o Dia Nacional do Samba – inclusive com a 22ª edição do popularíssimo Trem do Samba, a partir da Central do Brasil.

Outra notícia que alegrou o mundo do samba nesta semana foi o anúncio pelo Ministério da Cultura de mais recursos para as escolas de samba do Carnaval carioca, que enfrentam uma crise intensa com a redução das verbas por parte da Prefeitura do Rio. As escolas de samba do Grupo Especial vão receber, via Lei Rouanet, R$ 8 milhões para o carnaval do ano que vem. A verba será disponibilizada pela Caixa Econômica Federal à Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa).

O samba, mesmo centenário, continua dando frutos, desde aquele primeiro registro oficial, em 1916. Vieram grandes nomes, que deixaram marcas na música popular brasileira, mas nada é fácil no mundo da cultura no Brasil. Até mesmo o registro de Pelo Telefone é cercado de polêmicas.

O pesquisador e premiado jornalista Ruy Castro, por exemplo, indica que a autoria da melodia não seria uma exclusividade de Donga, mas de um grupo de compositores que frequentava a casa de Tia Ciata, na praça Onze, no Rio de Janeiro. Na casa da baiana, aconteciam encontros e festas que duravam dias.

“É quase uma criação coletiva e Donga apenas foi mais esperto e saiu para registrá-lo em seu nome – no que fez muito bem (os outros deviam ter ficado mais atentos). A letra, atribuída ao jornalista Mauro de Almeida, também tem vários autores”, pondera. “Este é, na verdade, o primeiro samba que fez sucesso com o nome de samba no selo do disco”, afirma.

Polêmicas à parte, no ano seguinte, a música registrada por Donga fez grande sucesso no carnaval. A letra, como explica André Diniz no Almanaque do Samba, é uma sátira ao chefe da polícia do Rio de Janeiro, Aurelino Leal. Ele tinha determinado aos subordinados que informassem antes aos infratores, pelo telefone, a apreensão do material usado no jogo do azar.  A partir de Pelo Telefone, o termo samba ganhou enorme popularidade e, em algumas décadas, passou a ser identificado como símbolo da musicalidade brasileira.

ORIGENS

Os estudiosos da música brasileira registram que o samba surgiu no Rio de Janeiro em meados do século XIX, em áreas como o Morro da Conceição, Pedra do Sal, Praça Mauá, Praça XI, Cidade Nova, Saúde e Zona Portuária, localidades predominantemente habitadas por negros e mestiços, vindos principalmente da Bahia, e que formavam a “favela”, como chamavam sua comunidade. Nestes bairros, também se alojavam muitas baianas, conhecidas como as Tias Baianas, que mantinham as tradições da cultura negra. Tia Ciata ou Aciata – Hilária Batista de Almeida – é a mais destacada desse grupo. Moradora na Cidade Nova entre os anos de 1899 e 1924, ela é considerada uma das responsáveis pelo samba-carioca. As rodas de samba em sua casa, às vezes, duravam dias, e um samba para alcançar sucesso tinha que ser aprovado por essas rodas da casa de Tia Ciata.

Assim aconteceu com Pelo Telefone, samba-maxixado de Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos – 1890/1974) e Mauro de Almeida (jornalista conhecido como Peru dos Pés Frios – 1882/1956). ‘Abençoado’ na casa de Tia Ciata, Pelo Telefone foi registrado por Donga em 27 de novembro de 1916 e é considerado o primeiro a ser gravado, ainda no ano de 1917.

Donga abriu o caminho para outros frequentadores do quintal de Tia Ciata: Sinhô (José Barbosa da Silva), Ismael Silva, Chico da Baiana, João da Baiana. Mais tarde, no Estácio (anos 1920), o samba foi ganhando outras linhas melódicas. Alcançou Vila Izabel nos anos 1930 e recebeu outras variantes, ganhando status nacional com Noel Rosa, Ary Barroso, Luiz Peixoto, Mário Reis, Carmen Miranda e tantos outros.

Variações do ritmo, como o partido-alto, o pagode, o samba-canção, samba de breque, samba-enredo e as mais modernas como a bossa nova, o samba-rock, o samba-jazz e até experimentações eletrônicas mais contemporâneas reafirmam o poder transformador do samba, como cantou Caetano Veloso (Desde que o samba é samba). O ritmo foi e continua a se situar no centro da formação cultural brasileira, se renovando com as gerações mais novas de artistas nacionais e reafirmando sua importância histórica na música popular brasileira.

TREM DO SAMBA

Uma das provas da permanência do samba no Rio de Janeiro e no país é a persistência do projeto Trem do Samba, que chega à sua 22ª edição, sobrevivendo a todo tipo de crise. Esta edição será realizada hoje e amanhã,1 e 2 de dezembro. O evento faz parte do calendário oficial da cidade do Rio de Janeiro e Celebra o Dia Nacional do Samba, em 2 de dezembro, com uma viagem de trem da Central do Brasil ao bairro de Oswaldo Cruz, considerado o berço do samba carioca, localizado na região da Grande Madureira, subúrbio da cidade. Além disso, trata-se de uma grande oportunidade de promover a valorização do patrimônio imaterial da região.

A festa contará com um palco principal montado na Estação de Trem Central do Brasil, além de outros três situados no bairro de Oswaldo Cruz. O evento, idealizado pelo artista Marquinhos de Oswaldo Cruz, este ano, homenageia o Tambor, como instrumento que promove a comunicação entre as gerações, a ancestralidade, além de interagir com diversas culturas. A expectativa de público é de aproximadamente 120 mil pessoas.

A festa, que é gratuita, emprega anualmente cerca de 1.500 trabalhadores, promove o aquecimento do comércio local e arrecada alimentos não perecíveis, que são distribuídos para diversas instituições de caridade. Em média, são arrecadadas 2,5 toneladas de alimentos em cada edição do Trem do Samba.

O acontecimento mais esperado da festa ocorre a partir das 18h04, mesmo horário em que Paulo da Portela seguia para Oswaldo Cruz, há 80 anos, com seus companheiros de samba batucando e cantando nos trens. Todos são convidados a participar desta viagem que conta com cinco composições ferroviárias completas, fornecidas e operadas pela SuperVia – quatro delas, compostas por oito carros cada, destinadas aos participantes da festa e uma disponibilizada para as Velhas Guardas das Escolas de Samba, unidas nesta grande comemoração.

Para embarcar nesse Trem, basta contribuir com 1kg de alimento não perecível, trocado por bilhete, na própria estação da Central do Brasil, durante todo o dia do evento. Esses alimentos arrecadados serão destinados a entidades de apoio a pessoas carentes. Cinco Velhas Guardas e 32 rodas de samba garantirão grandes shows e muita festa, no interior das composições.

Amanhã, os shows acontecem durante o dia na Central do Brasil, até a partida do Trem do Samba rumo a Oswaldo Cruz. Vão cantar no evento Tia Surica, Monarco, Osmar do Breque, Mauro Diniz, Wilson Moreira, Noca da Portela, Dominguinhos do Estácio, Dorina, Marquinhos Diniz, Baianinho e Ernesto Pires.

 

Fotos: Divulgação