Morre o cantor e compositor Luiz Melodia, no Rio

Luiz Melodia, um dos mais originais compositores e cantores brasileiros, morreu ontem, aos 66 anos, após batalha contra um câncer. Ele deixa grande legado artístico

 

Um dos artistas mais originais da MPB, o cantor e compositor Luiz Melodia morreu ontem, aos 66 anos, vítima de um câncer na medula. Carioca do Morro do Estácio, ele surgiu para o grande público nos anos 1970, já com sucesso e produzindo canções inesquecíveis. Autodidata, ele foi revelado por Wally Salomão e Torquato Neto, nomes influentes na Tropicália, e teve seu primeiro sucesso como compositor na voz de Gal Costa, com “Pérola Negra” – aliás, a música mais conhecida de sua carreira.

A morte do artista – mais um dos grandes nomes da MPB que nos deixa em 2017, como Belchior, Almir Guineto, Jerry Adriani – causou comoção no meio artístico. O crítico musical Ricardo Cravo Albin se disse consternado com a morte de Melodia, que classificou como um artista único no universo da MPB.

Lutando contra um câncer, Melodia chegou a fazer um transplante de medula. No entanto, o artista não estava respondendo bem à quimioterapia. Ele foi internado no dia 28 de março no Hospital Quinta D´Or, para o combate ao chamado mieloma múltiplo. Ele ficou internado no CTI durante o início da quimioterapia e, nesta semana, o quadro se agravou.

Melodia descobriu a musica ao ver o pai, seu Oswaldo, tocando em casa “Fui pegando a viola dele, tirando uns acordes, observando. Ele não deixava eu pegar a viola de 4 cordas que era um relíquia, muito bonita, onde eu aprendi a tocar umas coisas”. Apesar da precoce afinidade com a música, ele acabou contrariando seu pai, que sonhava vê-lo um “doutor” formado: “Ele não apoiava, não adiantou coisíssima alguma, até porque as coisas foram acontecendo. Depois ele veio a curtir para caramba, quando ele faleceu, perdi um grande fã”, relevou Melodia.

UM REBELDE

Depois de abandonar a escola, ainda no antigo curso ginasial, Melodia passou a adolescência compondo e tocando sucessos da jovem guarda e bossa nova, com o grupo Instantâneos, formado com amigos. Essa experiência, juntamente com a atmosfera em que vivia – do tradicional samba dos morros cariocas – , resultaram em uma mescla de influências que renderam a Luiz Melodia um estilo único, logo acabou por chamar atenção de um assíduo de Wally Salomão e de Torquato Neto

Depois da gravação de “Pérola Negra”, por Gal, em 1972, e de “Estácio holly Estácio”, na voz de Maria Bethânia, Luiz Carlos dos Santos assumiu o nome de Luiz Melodia – apropriando-se do sobrenome artístico de seu pai. Lançou no ano seguinte (1973) seu primeiro e antológico disco “Pérola negra”. Em toda a carreira, apesar do sucesso, Melodia se mostrou um artista inquieto, irreverente, que não se adequava à ditadura das gravadoras. Isso lhe rendeu um estilo musical inconfundível, assim como críticas que o consideravam um artista “maldito”, ao lado de nomes como Fagner e João Bosco, por exemplo. “Não éramos pessoas que obedeciam. Burlávamos, pode-se dizer assim, todas as ordens da casa, da gravadora; rompíamos com situações que não nos convinham. Sempre acreditei naquilo que fiz e faço”, afirmou o artista.

Sua carreira acabou por consolidar-se no disco seguinte, “Maravilhas contemporâneas” (1976), popularizado pela canção “Mico de circo” (1978), que seria gravado em seu retorno ao rio. Nas décadas seguintes, melodia lança diversos álbuns e realiza shows, inclusive internacionais.

Já conhecido do público e com seu espaço no cenário da MPB, Luiz Melodia lança “Nós” em 1980. No disco seguinte “Reliquias” (1985), faz uma releitura com novos arranjos para sucessos como “Ébano”, “Subanormal” – e no registo intimista intenso de “Acústico – ao vivo” (1999), em que Melodia passeia novamente por sua obra, agora através da espontaneidade de um disco gravado ao vivo durante sua turnê nacional, considerado sucesso de publico e critica.

IDAS E VINDAS

A carreira de Luiz Melodia, apesar de mais de quarenta anos, não teve tantos registros em disco – apenas 13 álbuns de inéditas e 16 no total. Para piorar, a gravadora onde começou teve seu acervo roubado e muito da obra original de Melodia se perdeu, registros históricos que ficarão inéditos. No ano de 2003, Luiz lança o DVD/CD, Gravado ao vivo no PóloCine Vídeo, primeiro DVD da carreira, com show, entrevistas e as participações especiais de Zeca Pagodinho, Zeze Mota, Luciana Melo, entre outros.

Melodia acalentava a ideia de um projeto sobre samba por vários anos. Paralelo a isso, em meados de 2006, o cantor foi convidado para fazer um show especial em comemoração aos 70 anos do Teatro Rival, no Rio de Janeiro. Focado em sambas de várias épocas, o espetáculo seria o embrião, por assim dizer, do disco Estação Melodia, cujo repertório é a base do espetáculo que originou o CD, DVD e programa Especial MTV, em 2008.

Seu último trabalho foi o elogiadíssimo Zérima, décimo terceiro álbum de estúdio, lançado em 2014 pela gravadora Som Livre. Depois de 13 anos sem um disco de inéditas, Luiz Melodia voltava ao seu típico gênero musical. O samba (e outras bossas) ouvido nas 14 faixas, de forma tão pessoal e intrasferível quanto sua ótima qualidade vocal. Cheio da classe e do suingue habituais, Melodia apresentou novas composições como ‘Cheia de graça’ e ‘Dor de Carnaval’.

Casado com a produtora e cantora Jane Reis, com quem tem o filho Mahal, também cantor/compositor, e integrante da dupla de hip hop Aliança 21 (c/ Tigrão), que lançou o disco “Apocalipse”. Faleceu em decorrência de câncer de medula, tendo seu corpo velado na Quadra da Escola de Samba Estácio de Sá. O enterro será hoje (5) às 10h, no cemitério do Catumbi.