Memória viva da ferrovia e dos telégrafos

O telegrafista aposentado Delevalde Guimarães nasceu na ferrovia, viveu nos correios e luta por preservar essa memória

 

William Mendonça

Uma viagem no tempo. Assim é uma conversa com o radiotelegrafista Delevalde Alves Guimarães, um entusiasta da preservação do transporte ferroviário e, especialmente, do telégrafo – dois instrumentos que serviram para a integração do país e que hoje, infelizmente, não recebem a atenção merecida em termos de preservação.

Filho e neto de ferroviários, Delevalde tem no sangue e na memória a vida nas estações de trem do interior do Brasil, inclusive em Venda das Pedras, onde seu pai, Waldemar Francisco Guimarães, já falecido, trabalhou. Nascido no Areal, em Itaboraí, ele conta que brincava nos trilhos do trem e nas estações. O pai trabalhava na Estação Ferroviária de Venda das Pedras quando do nascimento de Delevalde.

Assim como a muitas crianças nas décadas de 1950 e 1960, os trens fascinavam o menino Delevalde. Mas, nessa história, outra paixão surgiu: a telegrafia. Quando estava com 12 anos e a família residia em Fernando Lobo, Minas Gerais, onde o pai era chefe da agência, de tanto transitar pela estação e demonstrar curiosidade, Delevalde recebeu um convite: “Você quer aprender telegrafia?”.

Daí para a frente, a vida desse itaboraiense se viu irremediavelmente mesclada ao telégrafo. O pai, inicialmente, preparou o alfabeto, para Delevalde tomasse contato com o Código Morse, uma das poucas linguagens universais no mundo, que serve para a transmissão das mensagens telegráficas. Em algum tempo, ele já estava ajudando ao pai na transmissão de mensagens, passando por um treinamento em família.

Foto: Acervo Pessoal

A ferrovia seguiu na mente e no coração de Delevalde.

“Eu e meus pais residimos em diversas estações da Estrada de Ferro Leopoldina (EFL) e também da Estrada de Ferro Maricá (EFM), pelo fato de o chefe da estação ocupar a residência”, conta.

Anos mais tarde, já aposentado, o herdeiro não deixou de honrar as tradições dos ferroviários de sua família. Começou a se interessar por turismo ferroviário e, durante um tempo, participou da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF). Com a ABPF, foi um dos organizadores de um passeio experimental memorável, com uma composição de seis carros de madeira, tracionada por uma “Maria Fumaça”, que circulou entre Guapimirim e Visconde de Itaboraí, nos anos 90.

Delevalde e seu pai, que foi ferroviário. Foto: Acervo Pessoal

A viagem, feita a pedido da Embratur para avaliar o potencial turístico para os municípios da região, acabou sendo a única – porque no Brasil, nem sempre memória e turismo andam juntos. Delevalde se desligou da ABPF, mas não da paixão pelas ferrovias.

“Com toda a certeza, o traçado da antiga EFM hoje estaria contribuindo significativamente para o Ecoturismo, realizando passeios de Maria Fumaça para a Região dos Lagos, já que todas as cidades daquela região eram servidas pela EFM, com o transporte de passageiros, cargas e correios”, afirma.

 

CORREIOS

Mas não foi como ferroviário que Seu Delevalde ganhou a vida. A casa em que trabalhou por mais de duas décadas foi a Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), no setor de telegrafia. Os ensinamentos do pai foram muito úteis para a conquista de uma carreira, em que começou como Operador de Telecomunicações III e se aposentou como Técnico de Telecomunicações I.

Ele prefere não entrar no assunto da crise por que passam os Correios. A empresa, que sempre foi um dos sinônimos de confiabilidade no país, vive problemas por conta das mudanças de hábitos dos usuários, que não precisam mais de cartas com o avanço da internet, além de ter sido envolvida em alguns escândalos de uso político e má gestão. Para quem viveu parte dos anos dourados dos Correios, com sua chegada aos mais distantes pontos do país, mais vale uma lembrança boa nas mãos do que um futuro incerto voando.

 

PRESERVAÇÃO

O objetivo de Delevalde Guimarães é manter viva a telegrafia – em seus aspectos técnicos e históricos. Instrumento de unificação do planeta, utilizado mais de um século antes do surgimento da internet, inclusive quando ainda não havia aviões e as distâncias eram medidas em meses, não horas, o telégrafo hoje permanece vivo no transporte marítimo, como uma espécie de “plano B” para as comunicações, caso os links via satélite caiam ou sejam bloqueados.

Delevalde defende que a preservação desta arte é importante e, mais do que isso, a transmissão do conhecimento para uma nova geração de radiotelegrafistas é viável. Ele lembra que na Marinha Mercante, o conhecimento da telegrafia é obrigatório, transformando o antigo radiotelegrafista em oficial radiotécnico.

Como forma de manter viva essa tradição, Delevalde faz demonstrações do uso do telégrafo, com seus equipamentos de valor histórico, em eventos especiais. Em 2015, levou esse conhecimento a uma reunião promovida pela Fundação de Cultura de Itaboraí, com historiadores. A ideia era criar um curso voltado para crianças em idade escolar ou jovens perto de ingressar no mercado de trabalho. Em Itaboraí, na época, o projeto não vingou.

 

TANGUÁ

Porém, agora, Delevalde está em tratativas com a Prefeitura de Tanguá para que o curso aconteça por lá. A cidade demonstrou interesse, já que a Estação de Trem de Tanguá foi transformada em um centro de cultura e memória, aberto ao público e administrado pela Prefeitura. O radiotelegrafista destaca que seu projeto é de fácil implantação e depende apenas de um pequeno apoio do município, para acontecer.

“O objetivo principal dessa iniciativa é de fornecer à juventude mais uma ferramenta no campo intelectual para que muitos deles sejam despertados para alcançarem sonhos possíveis”, afirma Delevalde. Ele acredita que o curso pode, inclusive, se tornar um atrativo para incentivar a implantação do turismo ferroviário, que seria uma conquista para a Prefeitura de Tanguá.

Tanguá, ou mesmo Itaboraí – onde a memória ferroviária tem sido destruída, especialmente após da vandalização da Estação de Visconde de Itaboraí – , talvez outro município da região, podem acabar encampando o curso de radiotelegrafia, que cairia como uma luva se a vontade for preservar a história viva.

Otimista com relação a isso, na espera de assinar com Tanguá a implantação do curso, Seu Delevalde continua por aí, andando pelas ruas de Itaboraí, contando histórias com alegria e empolgação, como parte viva da história dessas duas maravilhas de tempos antigos: a ferrovia e a telegrafia.

 

Fotos: Amanda Mendonça