João Caetano 210 anos: um ator sem palco

Há 210 anos nascia João Caetano, primeiro grande nome do teatro brasileiro, ator, diretor e produtor teatral itaboraiense que conquistou o país

 

William Mendonça

Como o Diário do Leste costuma fazer todos os anos, no dia 27 de janeiro, publicamos uma matéria especial sobre João Caetano dos Santos, itaboraiense, nome fundamental do teatro genuinamente brasileiro, que nasceu há exatos 210 anos. Relembrar João Caetano é homenagear a arte teatral, que ao longo desses mais de dois séculos, produziu atores memoráveis, herdeiros do legado do ator itaboraiense que se tornou conhecido em todo o país. Também produziu autores, diretores, teóricos e realizadores teatrais em profusão.

Mas a data, como tem sido nos últimos cinco anos, é também um momento de tristeza – já que o teatro de Itaboraí, único equipamento teatral da cidade, que leva o nome do famoso filho da terra, continua fechado, desde o início de 2013 – quando, a pretexto de reformas urgentes e necessárias, foi interditado. De lá para cá, pouco ou nada foi feito.

O Teatro Municipal João Caetano atual é, na verdade, o prédio reconstruído no mesmo local onde por mais de 150 anos existiu o teatro original, prédio em que o próprio João Caetano fez sua estreia nos palcos, na segunda década do século 19. Depois de estar em ruínas, foi demolido na década de 1970. Um novo prédio foi erguido mas nunca plenamente concluído em seu interior, de maneira a abrigar profissionalmente a arte teatral que se faz hoje.

Mesmo assim, o Teatro Municipal João Caetano foi, desde sua reabertura, o ponto de encontro de atores, grupos amadores, diretores e autores locais, com oficinas, mostras e espetáculos. Abrigou outras artes, como a dança e a música. Recebeu espetáculos profissionais em turnê. Viveu dias de intensa atividade, mesmo que funcionasse de forma precária.

Agora, fechado, com parte do telhado removido, vítima de um imbróglio envolvendo o projeto de reforma, a nova vida do teatro ainda depende de várias providências. Em reunião realizada neste mês, em Porto das Caixas, o secretário municipal de Obras, Clóvis Thomé, garantiu que os recursos para a reforma do teatro, através de um convênio com o governo federal administrado pela Caixa Econômica, não serão perdidos.

Segundo ele, o projeto tinha inúmeras falhas e está sendo readequado, com o levantamento das melhorias necessárias para toda a parte técnica – elétrica, iluminação, sonoplastia, iluminação, etc. A expectativa é de que, no próximo aniversário de João Caetano, o quadro seja outro que não o de abandono e esquecimento.

Fundador da primeira companhia genuinamente brasileira de teatro, João Caetano dá nome a vários teatros em todo o país. Há, praticamente, um Teatro João Caetano em toda cidade de grande porte no Brasil, inclusive no Rio de Janeiro, onde uma estátua do ator recebe os espectadores, na Praça Tiradentes. Falecido em 1863, João Caetano entrou para a história como o primeiro grande nome do teatro no país.

“Em Itaboraí ele fez sua estreia dramática, desempenhando o papel de Carlos no Carpinteiro da Livonia, a 24 de abril de 1827. Quem rudemente escreve estas linhas foi testemunha dessa estreia, mas então tinha sete anos de idade e só conserva hoje impressões materiais da revelação daquele gênio da cena dramática. Era um jovem verdadeiramente belo, e cuja voz tinha o poder da música a exprimir sentimentos”, disse seu conterrâneo e contemporâneo Joaquim Manuel de Macedo.

João Caetano, assim como Macedo, são parcela fundamental da contribuição de Itaboraí para as artes brasileiras. Mais do que isso, são pioneiros. Se a Biblioteca fundada por Macedo e pela comunidade sobrevive e, em seu prédio atual, serve como ponto de convergência para estudantes, pesquisadores e amantes da leitura, o fechamento do Teatro Municipal João Caetano em uma cidade tão recheada de gente de teatro, mais do que uma tristeza, é um desrespeito.

Que isso mude, é o que esperamos. E vida longa ao ator.