Ilha, Salgueiro e Beija-Flor empolgam o público na Sapucaí

Com um tom crítico, a Beija-Flor encerrou os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial no início desta terça-feira (13). Além empolgar o público nas arquibancadas e frisas do Sambódromo, quando as últimas alas deixavam a passarela, a pista foi invadida e uma multidão foi atrás da azul e branco de Nilópolis, da Baixada Fluminense.

A Beija-Flor defendeu o enredo Monstro é aquele que não sabe amar, os filhos abandonados da pátria que os pariu, criado pelo coreógrafo da comissão de frente Marcelo Misailidis, baseado no livro de terror Frankenstein, de autoria de Mary Shelley.

Na obra, que agora completa 200 anos, um cientista dá vida a uma criatura construída com partes de pessoas mortas, tornando-se uma figura feia. Depois de rejeitada pelo criador, ela vaga em busca de companhia. E no desfile, a figura foi usada para um dos momentos de crítica no carro com o título de A Intolerância. Além de trazer a cantora Pabllo Vittar na frente, no meio da alegoria uma cabeça enorme de Frankenstein, se desfazia em fatias onde se lia embaixo palavras como racismo, feminicídio, ódio, discriminação, preconceito e xenofobia.

O público também respondeu bem à passagem do Salgueiro, que homenageou as mulheres guerreiras africanas e em diversas atividades. A comissão de frente da escola emocionou boa parte do público. Os componentes executaram a coreografia do casal Hélio e Beth Bejani, que estão no Salgueiro há 12 anos, e arrancou aplausos, principalmente quando representavam o momento do nascimento de uma criança negra, em uma alusão à fertilidade. Os integrantes saíam de uma alegoria no formato de uma cabaça e após ser dividida em fatias, os componentes apareciam para o público. “Aquilo me arrepiou desde a primeira vez que a gente ensaiou. É nascimento. É vida”, apontou Hélio.

O primeiro carro, o Eden Africano, todo vermelho, levou para a avenida mulheres grávidas. “Eu sou uma delas. Estou sem palavras, foi muito lindo. Foi uma experiência que vai ficar na minha memória para sempre. Quando meu filho nascer vou contar para ele. Ele já tem história”, disse Pamela Oliveira, de 20 anos, que está com seis meses de gravidez do Anthony.

No enredo De Repente de Lá Pra Cá e Dirrepente de Cá Pra Lá, a Portela, que foi a segunda a se apresentar no Sambódromo, levou a águia, o seu símbolo, já no abre alas. Na frente da escola estavam também dois personagens que fazem parte da história da escola. O cantor e compositor Monarco e a cantora Tia Surica.

A escola contou a história dos imigrantes judeus que tiveram que sair de Portugal por perseguição religiosa e se instalaram, onde inauguraram no Recife, em Pernambuco, a sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira das Américas. Mas também precisaram deixar o local após a retomada da área por portugueses. Foram para Nova Amsterdã, que mais tarde se transformou em Nova York. A escola abordou também a intolerância contra a imigração.

O desfile da União da Ilha trouxe de volta para o Grupo Especial a alegria contagiante que a caracterizou em carnavais passados. O último carro, intitulado Ilha prepara a mesa do bar, faz a festa, estava com um time dos melhores chefes de cozinha que trabalham no Brasil. O chefe Claude Troisgros se emocionou de ver a culinária brasileira na avenida. “Foi maravilhoso, deu uma alegria representar a culinária brasileira no carnaval do Rio de Janeiro, que é o melhor do Brasil. É uma honra, estou muito emocionado com isso”.

As alegorias da União da Ilha mostraram diversos aspectos da culinária nacional e suas influências, como as que ocorreram com a dos negros e dos indígenas. Mas teve ainda o momento das sobremesas. Conforme os carros iam passando, chegavam, com eles, os cheiros. No que mostrava o cacau, claro, o aroma de chocolate ficou no ar. Mas a escola teve um momento especial de muita interação com o público. Foi com a bateria comandada pelo Mestre Ciça, que durante o desfile fez várias paradinhas com mudança nos ritmos e separando os naipes dos instrumentos. O público foi ao delírio em todas as vezes que isso aconteceu.

Os desfiles da segunda-feira (12) na Marquês de Sapucaí começaram com a Unidos da Tijuca, que levou para lá um verdadeiro elenco para homenagear o ator, escritor, produtor cultural e até carnavalesco Miguel Falabella.

Ao descer do carro alegórico, a atriz Araci Balabanian estava emocionada ao chegar na Praça da Apoteose, no fim da passarela. “Acho que o Miguel merecia toda essa ovação que eu vi aqui na avenida. Ele merece isso e muito mais. Estou muito emocionada”, disse.

A atriz Cláudia Raia, que veio de estaque do carro La Mancha nas teias da Mulher Aranha, uma referência às produções internacionais que Miguel trouxe para o Brasil, disse que não poderia ficar de fora dessa homenagem. “Eu faço parte da vida inteira dele e ele da minha. Na vida e na arte é meu irmão”.

A Imperatriz Leopoldinense homenageou os 200 anos do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no bairro de São Cristóvão, na zona norte do Rio. A escola não esqueceu de nada. As alegorias mostravam desde a fachada do Museu, a origem e a evolução da vida até os espaços destinados às culturas egípcia e africana. Teve ainda um carro que representava o Santuário de Ossos. O setor era destinado a um novo mundo e seus novos habitantes: Vertebrata ET Invertebrata. (Agência Brasil)

 

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil