A hora e a vez do Nordeste, com ‘Kabra Valente’

Uma grife nascida em Itaboraí que chegou para provar que pode haver um povo com o mesmo orgulho do que o nordestino, maior não há

 

Por William Mendonça

Uma ideia luminosa, que une brasileiros de todos os cantos do país que têm origem em um certo pedaço de terra chamado Nordeste. Assim é a grife Kabra Valente, capitaneada pelo publicitário itaboraiense (mas filho de cearense) Geraldo Oliveira, e que está ganhando mais do que usuários, e sim, fãs.

Exaltando o espírito de resistência, a cultura e a fé do povo nordestino, com orgulho daquilo que os representa, Kabra Valente passa bem longe de algumas iniciativas que são mais uma pasteurização da autenticidade, ou apropriação que ridiculariza, ao invés de homenagear – como se vê, às vezes, no cinema, na música ou na literatura. Como explica Geraldo, é “Nordestinidade raiz”, de fato.

“Sempre me cativou o bom humor e a valentia do nordestino, não a valentia do cangaço, mas sim, a valentia de vencer a si mesmo frente as adversidades do sertão”, conta Geraldo. “Aos meus 42 anos convivo com estas qualidades explicitas em meus pais. Meu pai homem, duro no tocante a resistência física, mas choroso ao simples toque de amor. Verdadeiramente disse a verdade, Euclides da Cunha, quando escreveu: O nordestino é antes de tudo um forte. Minha mãe, alegria em pessoa. Amante de seus filhos. Ambos com a virtude de fazer graça com as próprias dificuldades”.

E é assim para todo aquele que tem um parente próximo – pai, mãe ou ambos – nascidos no Nordeste. E não importa o estado, já que um traço comum une pernambucanos, cearenses e maranhenses, só pra citar alguns. É uma resistência inegável do sotaque, costumes que passam de pai para filho, mesmo a quilômetros e anos de distância daquele ponto natal. É uma mania de incluir a todo nordestino como parte de uma grande família.

E, sejamos sinceros, nem sempre é fácil ser do Nordeste. Vencer ambientes nem sempre convidativos, como caatinga, com seus quase intermináveis anos de seca, já é uma missão complexa. Por conta disso, muita gente migra para os estados mais ao Sul, muitas vezes com pouco dinheiro, em condições até sub-humanas, apenas com a vontade de trabalhar e a saudade de sua terra.

Em muitos lugares do país, a recepção a esse povo tão genuinamente brasileiro é pior do que a grupos díspares de imigrantes de vários pontos do mundo. O preconceito está lá, às vezes na cara, outras vezes velado. Vencer o preconceito é só mais um dos desafios que o nordestino e seus descendentes precisam vencer fora de sua origem.

Em sua origem, a “nordestinidade raiz” pode unir tipos tão distintos como o sertanejo pernambucano e o pescador jangadeiro do Ceará, o criador de cabras do sertão paraibano e o plantador de cacau da Bahia, o repentista de vários pontos do Nordeste e os dançarinos de frevo de Olinda. Pode ir do bumba meu boi ao maracatu, passando pelo forró e o baião, resvalando até na axé music, coisa de poucas décadas para cá.

Geraldo Oliveira diz que a ideia da Kabra Valente vem dessa necessidade de dar forma e verbo à resistência e à identidade cultural desse povo. Itaboraí, que para muitos pode não ter absolutamente nada a ver com o Nordeste, é um local que recebeu milhares de nordestinos e seus filhos ao longo dos anos. Desde aqueles que chegaram como mão de obra para a lavoura e a construção civil, em décadas passadas, até os recentes imigrantes que vieram atrás do eldorado do Comperj, transformado rapidamente em cinzas. Muitos permanecem aqui e permanecerão, porque não é da natureza do nordestino desistir das coisas.

UMA HISTÓRIA

“Tapioca, cuscuz de milho e Luiz Gonzaga.  Isto foi o mais próximo que estive do nordeste, quando criança. Mas com o passar do tempo fui me aproximando de minha família, todos cearenses”, lembra Geraldo. “Contos, histórias, a tradição oral de contar as coisas da família e do sertão foram me encantando. Meu avô Pedro Mundico, que viveu lúcido, até os 105 anos, um homem respeitável e cheio de humor, sempre é citado em minhas conversas”.

Essa passagem entre o nascer aqui e se descobrir sendo do Nordeste é algo que Geraldo notou muito rápido, desde a criação da Kabra Valente. Sua coleção de camisetas com estampas traduzindo o amor e orgulho as raízes nordestinas, logo encontrou adeptos entre os filhos de nordestinos, muitos deles que nunca estiveram nos estados de origem da família. É uma autodescoberta, para muita gente.

A presença do Nordeste na cultura brasileira transcende as fronteiras. A música, desde Luiz Gonzaga, passando por gente como Lenine, Alceu Valença, Caetano e Gil, Caymmi, Zé e Elba Ramalho, Chico Science e Nação Zumbi, atravessando gerações, é uma terra fértil para o talento nordestino. Nas letras, há gente como Raquel de Queiroz, Ariano Suassuna, o cearense José de Alencar, o baiano Jorge Amado, e tantos outros que faltariam linhas para citar, incluídos os cordelistas, como J. Borges,  que durante décadas contaram as histórias do nordeste em seus livretos, pelas feiras de tantos lugares. E quantos talentos da TV e do cinema também vêm de lá, como o múltiplo Chico Anysio, o sempre Didi Renato Aragão e o Fenômeno da internet Whindersson Nunes, Nascido no Piaui.

“Assista ‘Entre irmãs’, do diretor Breno Silveira, que contra a trajetória de duas irmãs no sertão Pernambucano, no tempo do cangaço”, dá a dica Geraldo. Ele poderia falar da impagável comédia “Cine Holliúdy”, o primeiro filme falado totalmente em “cearês”, ou melhor, no dialeto cearense, dirigido por Halter Gomes, e que, assim como as obras de Suassuna, faz algo que o nordestino sabe fazer muito bem: rir de si mesmo. Porque bom humor está em falta por aí.

“Nordestino, sujeito sonhador, cabra trabalhador, que veio ou que ficou e com fé em nosso Senhor, enfrenta as agruras da vida, sem perder o humor”, diz um cordel ( de sua própria autoria)  que virou camiseta, nas mãos de Geraldo e da Kabra Valente. Tudo com qualidade de primeira, venda online, valorizando quem produz e quem precisa.

MISSÃO

Valorizar quem precisa, aliás, é um dos focos da Kabra Valente. Geraldo Oliveira explica que a marca também traz a missão tentar amenizar as agruras dos moradores do sertão, com envio de parte do lucro para ações sociais.

“Há quem diga, que pode ser assistencialismo ou coisa parecida. Para estes, deixo a estrofe do musico pernambucano Chico Science: Com a barriga vazia não consigo dormir. E com o bucho mais cheio comecei a pensar”, dispara o empresário, certo de que sua ajuda não vai resolver os problemas do Nordeste, mas pode ajudar alguém a vencer os desafios de mais um dia.

SERVIÇO

Kabra Valente pode ser encontrada no site: https://montink.camisadimona.com.br/loja/kabraValente, e na fanpage: Kabra Valente Nordestino Sim Senhor. Instagram: Kabravalente