Antônio Soares Lopes, ex-diretor do Colégio Cenecista Alberto Torres

chamada-Gabriella Santos - Cópia

Colégio Cenecista Alberto Torres, Rotary Clube, Esporte Clube Comercial e Feita. Essas são apenas algumas das instituições das quais o senhor Antônio Soares Lopes teve participação ativa e de relevância em Itaboraí.

Aos 90 anos, recém-completados, o ex-diretor do Alberto Torres, chamado respeitosamente por todos com quem conviveu de doutor Antônio, tem diversas histórias de sucesso para contar e diversas boas lembranças dos anos em que esteve à frente do colégio que, em sua época, era referência na região.

Até hoje lembrado por seus ex-alunos e funcionários por ter um coração generoso, doutor Antônio contou, em entrevista à repórter Gabriella Santos, suas experiências na condução do corpo docente e discente do Alberto Torres, além de outras experiências que teve em diversas instituições da cidade.

 

Diário do Leste – Conta um pouco da sua história.

Antônio Lopes – Essa é uma história de 90 anos. Eu nasci em Lagoa Verde, no município de Rio Bonito. O lugar é dividido pelo Rio Tanguá e parte dele fica em Itaboraí. Então, eu nasci em Rio Bonito e fui criado em Itaboraí. Na adolescência fui estudar em Rio Bonito, no ginásio, e depois fui para Niterói fazer o científico. Eu fiz prova para trabalhar em um órgão estadual e fui classificado. Eu fui para Itaboraí para exercer o cargo de escrivão da Coletoria do Estado, que era uma espécie de banco que fazia o pagamento dos funcionários do estado e recebia os impostos. Lá eu fiquei durante nove anos e depois passei a chefe da Coletoria do Estado, onde fiquei por 11 anos. Quando houve a fusão do estado a Coletoria foi extinta e eu passei para a fiscalização do estado. Como fiscal eu trabalhei em Caxias, em Maricá e depois fui para Silva Jardim. Em seguida me aposentei no estado.

 

DL – O senhor exercia outras funções também?

Antônio Lopes – Paralelamente eu trabalhei na Educação, participando, inicialmente, na fundação do ginásio Alberto Torres. Eu, o então prefeito, Roberto Pereira dos Santos; padre Hugo Montedônio Rego; dona Laura Sid, que era diretora do Grupo Escolar Visconde de Itaboraí; Odir Barros e algumas outras pessoas. Nós fundamos o Alberto Torres, onde eu lecionei por 15 anos, eu fazia parte da diretoria e lecionava.

 

DL – Quem trouxe o projeto do colégio para a cidade?

Antônio Lopes – Na época, havia um pastor, o pastor Teodoro, que descobriu um movimento idealista que havia sido levantado em Recife e levou a ideia para Itaboraí, que era muito atrasada. Essa ideia foi encampada elo prefeito da época, o Roberto Pereira dos Santos, que decidiu fazer uma escola ginasial. Nós aderimos essa ideia e fizemos um movimento para a fundação do ginásio. Tivemos uma assembleia no Grupo Escolar Visconde de Itaboraí que teve a presença de muitas pessoas e, apesar da descrença de algumas pessoas que diziam que a cidade não tinha aluno nem professor, por isso o ginásio não daria certo, nós decidimos pela realização do projeto. Todos se prontificaram a doar a quantia que pudessem para a fundação do colégio.

 

DL – Como foi esse processo de fundação do colégio?

Antônio Lopes – A área onde hoje funciona o colégio era um terreno do Governo Federal e uma parte era ocupada para o plantio de laranja. Nós, então entramos em contato com o dono do pomar e ele nos doou seu terreno. Depois, fomos atrás do Getúlio Vargas, que na época era o presidente da República e ele autorizou a seção do terreno. Eu lembro que o padre Hugo deu cerca de 100 viagens ao Rio de Janeiro, que ainda era a capital do país, para finalizar o esse processo. Somente no governo de Juscelino Kubitschek conseguimos assinar o contrato de seção do terreno, de 21 mil metros quadrados, para a construção do colégio. Inclusive, esse terreno não pode ter outra finalidade senão o uso para um colégio, pode ser o Alberto Torres ou qualquer outro, mas ali não se pode funcionar outra coisa.

 

DL – Como era a estrutura do Alberto Torres logo após sua fundação?

Antônio Lopes – Nós tínhamos, no início, uma diretora, a dona Laura dos Santos Sid, que foi uma das co-fundadoras. Depois o dela assumiu a direção o padre Hugo Montedônio Rego. Ele foi diretor por mais ou menos 12 anos. Em seguida ao padre Hugo, o diretor foi o professor Adão Lobo, que ficou dois anos e meio mais ou menos e depois eu passei a ser o diretor. Como diretor do colégio, a essa altura já com o curso Normal e de Contabilidade, eu tive uma amplitude maior das minhas funções. Eu ingressei na direção em 1965 e fiquei até 1991, quando me aposentei e saí do colégio. Nesse período de 26 anos eu conciliei a parte do trabalho no estado com a educacional, no colégio.

 

DL – Como era sua rotina nessa época?

Antônio Lopes – Eu dava aula pela manhã, ia trabalhar às 11h, voltava à tarde e ficava até 21h, 22h dando aula e cuidando das minhas funções como diretor. Quando eu me aposentei no estado, em 1983, eu fiquei com mais tempo, pois fiquei só com o colégio. Nesse período em que eu fiquei somente no colégio tive mais tempo para me dedicar a ele e ele cresceu muito. Quando deixei o Alberto Torres, em 1991, ele estava com dois mil alunos e 126 funcionários.

 

DL – O senhor participou de diversas outras instituições na cidade. Quais foram?

Antônio Lopes – Nesse período em que fiquei no colégio e ainda trabalhava no estado eu colaborei, em Itaboraí, na fundação do Rotary Clube, do qual sou, no momento, sócio honorário; participei da Feita, a Fundação Educacional de Itaboraí, como membro da diretoria; participei da Academia de Letras e Ciências de Itaboraí, que foi extinta há anos; também tive participação no Esporte Clube Comercial, do qual fui presidente e um dos fundadores.

 

DL – O que era a Academia de Letras e Ciências?

Antônio Lopes – A Academia foi fundada pelo doutor Matatias, que era juiz de Direito, e ela não teve uma vida maior porque o doutor Matatias foi acometido por uma doença séria e veio a falecer. Com isso o projeto ficou meio sem rumo e acabou sendo extinto. Eu era tesoureiro da Academia e juntamente com a professora Eliza tentei reativá-la, mas não havia muitos membros e muitos eram de fora do município, o que dificultava o contato, e com isso ela se foi. Isso foi há cerca de 30 anos.

 

DL – Como foi sua experiência à frente do colégio?

Antônio Lopes – O colégio para mim foi uma etapa muito importante e que eu gostava muito. Minha vocação não era para a função que eu exercia no estado. A minha identificação com o colégio foi tanto como professor, quanto depois, já como diretor. Na época, quase todos os alunos passavam pelo Alberto Torres, porque ele era uma referência, e eu convivi muito bem com todos eles. Nós tínhamos a Banda Marcial e a Banda Musical, conduzidas pelo maestro Augusto; tínhamos a biblioteca, que tinha a Giselda como chefe. O colégio para mim era algo muito importante e eu tinha muito prazer no exercício de minhas funções. No estado eu exercia por dever do ofício, mas no estado existia a burocracia que emperra a atividade da pessoa e isso me martirizava. Já no colégio eu tinha total autonomia.

 

DL – Como funcionava o Conselho da Cnec?

Antônio Lopes – Havia o conselho da Cnec, que teve por 14 anos como presidente o senhor Militino Raposo e como membros do Conselho trabalhavam comigo o senhor Antônio Pinho, o Gilmar Melo, o Ari Floriano, o Manoel Oliveira, Alaide Machado e outras pessoas da cidade. O Conselho funcionava muito bem. Nós tínhamos nossas festas juninas que eram verdadeiras apoteoses e tinha o comparecimento de milhares de pessoas e a colaboração de toda a comunidade. Para a construção do prédio que existe atualmente nós fizemos o primeiro Livro de Ouro, no começo da existência do colégio e ele foi muito bem sucedido. Nós tivemos o apoio de muitas pessoas e fizemos a primeira parte da obra. Mais tarde, fizemos o segundo Livro de Ouro para construirmos a segunda parte. Esse Livro de Ouro também foi muito bem sucedido, nós tivemos contribuições valiosas. O dinheiro foi tanto que eu consegui fazer o que queria e ainda pude fazer o muro da frente. Esse apoio estimulava o trabalho e a participação. Eu saí do colégio em 1991 e passei a direção da escola à professora Marly Ferola Bento, que era uma professora de grande valor.

 

DL – Como funcionava a seção de bolsas de estudo?

Antônio Lopes – O colégio era eminentemente comunitário e ali ninguém deixava de estudar porque não podia. Se alguém chegasse lá para se matricular sem condição nenhuma se matriculava do mesmo jeito. Alguns chegavam dizendo que não podiam pagar o valor integral da mensalidade nós autorizávamos que fosse pago o que o aluno podia. Nós temos o exemplo de uma família de quatro irmãos em que a mãe trabalhava como faxineira e eles não tinham recurso para pagar a mensalidade das quatro crianças, então ela dava o dinheirinho que pudesse e, assim, todos estudaram e se formaram. Hoje, uma delas é advogada, uma é enfermeira, a outra irmã é psicóloga e o menino também se formou advogado. E como essa família, muitas outras na mesma situação não deixaram de matricular seus filhos na escola.

 

DL – Como era seu relacionamento com os alunos?

Antônio Lopes – Nós tivemos alunos bons que tinham condições financeiras boas e também tivemos alunos muito bons com a condição financeira precária, mas todos eram tratados de igual forma, não havia distinção entre eles, não tratávamos ninguém diferente por suas condições financeiras ou por sua cor ou etnia. Havia alunos de todas as partes do município e inclusive de cidades vizinhas. Ter podido desempenhar o papel de diretor desse colégio foi muito importante para mim, eu tive prazer em trabalhar lá e ter podido desempenhar esse papel tão importante. A gente poder fazer alguma coisa pelo próximo é excelente e felizmente eu tive essa oportunidade.

 

DL – O senhor ainda tem contato com seus ex-funcionários?

Antônio Lopes – As pessoas que trabalharam comigo fazem encontros e eu procuro participar sempre que possível. Eu também ainda mantenho contato com ex-alunos da época, eles telefonam para mim e eu tenho muito prazer nisso, para mim é uma satisfação muito grande, isso me ajuda a viver.

 

DL – Qual a sensação de ver pessoas que estudaram na época em que o senhor era diretor obterem sucesso?

Antônio Lopes – Eu tive muitos alunos que hoje são pessoas de sucesso, pessoas importantes. Eu tenho muito prazer nisso, muita satisfação. Havia um rapaz de família muito humilde que trabalhava na cantina na minha época e era aluno da escola. Quando terminou os estudos começou a trabalhar em Niterói e acabou se formando e se estabelecendo. E há pouco tempo, quando eu estava em Itaboraí, eu estava no banco e ele estava lá também. Quando passou por mim me cumprimentou e contou que hoje ele é advogado em um escritório no Rio de Janeiro. É muito importante saber que essas pessoas subiram e alcançaram o sucesso.

 

DL – O senhor ajudou a fundar também o Rotary Clube…

Antônio Lopes – Sim. O Rotary foi fundado em 1972 e eu fui o segundo presidente de lá, o primeiro foi o doutor Enéas Heringer. E para construir aquela sede nós fizemos um Festival de Chopp e ele foi um apogeu. Nós vendemos cinco mil canecos e tivemos uma receita muito importante, com a qual compramos o terreno para a sede do Rotary e iniciamos a construção. Depois nós fizemos algumas rifas e promoções para conseguir terminar de construir e fizemos aquela edificação que está lá.

 

 

Foto: Gabriella Santos